sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Como saber se você está “humanizando” o seu animal?

Veterinária e especialista em comportamento animal alerta para cuidados excessivos e lista as principais atitudes dos donos com seus pets

Dar chupeta para o animal é um forte indício de humanização

Tratar o cão ou o gato como um membro da família se tornou uma tradição que pode ser prejudicial. A humanização dos pets está ganhando campo nos lares dos brasileiros e, como já foi alertado por diversos especialistas, está trazendo conseqüências desagradáveis para os bichinhos e a sua convivência com os donos. Disso, com certeza você já sabe. Mas consegue identificar em você e no seu animal, os “sintomas” desse mal?

Algumas raças, como o Shih Tzu e o Yorkshire, contam com a aparência fofa e o seu temperamento e acabam sofrendo mais com os cuidados extravagantes de seus donos. Basta pesquisar na internet para ver imagens de cães com chupetas, carrinhos de bebês, sapatinhos e até mesmo festas de aniversário e banhos em excesso. Entrevistamos a veterinária e especialista em comportamento animal, Dra. Livia Romeiro, da Vet Quality Centro Veterinário 24h, para falar sobre o assunto e falar sobre algumas dessas atitudes para ajudar você a não entrar nessa emboscada.

Quais são os primeiros sinais que um cão demonstra quando o dono está o “humanizando”?
A humanização ocorre quando reproduzimos características físicas ou psicológicas humanas em animais. A utilização de objetos humanos, ou mesmo atividades características de nossa espécie, bem como utilizar sentimentos, pensamentos e relações que nós utilizamos, em nossos animais pode ser altamente prejudicial para o seu desenvolvimento físico e mental. Podemos notar fisicamente estas alterações como, por exemplo, dar alimento com talheres para o cão; ou colocar adornos em gatos; utilizar sentimentos humanos como a necessidade de ser mãe, dizer que o animal sente falta de um irmão, etc. Essas alterações podem causar mudanças de comportamento severas tanto para o cão quanto para o gato, tais como ansiedade de separação, conflitos na resolução de problemas, distúrbios de comportamento, etc.

Muitos donos nem ao menos percebem que estão humanizando seus bichinhos. O que eles costumam fazer e não percebem?
Quando vemos proprietários colocar sapatos em seu cão unicamente para que ele não entre em contato com o chão da rua (ou seja quando não ha outro problema base como alterações físicas que o impeçam disso), ou quando passeiam com seus cães em carrinhos de bebe. Isto pode ocasionar alguns problemas para o animal. Por exemplo, um cão que anda em um carrinho perde o senso de seguir o dono, deixa de praticar exercícios físicos, se torna dominante por aquele território do carrinho, deixa de receber inúmeros estímulos táteis e olfatórios que só o caminhar com o pé no chão pode proporcionar.

As conseqüências disso para um cão de raça e um SRD (que veio de adoção ou sofreu maus tratos) são diferentes é?
Não. A única diferença que um cão humanizado desde filhote tende a ter efeitos colaterais mais acentuados e mais difíceis de desvincular. Os cães adotados já adultos muitas vezes até relutam a serem humanizados, se negando a utilizar o carrinho ou sapatos.

Quais problemas mais graves de saúde e comportamento o cãozinho pode desenvolver?
Depende do tipo de alteração que ele sofre. Podemos ver distúrbios alimentares causado por dietas inadequadas; alterações em pele causada tanto por banhos em excesso e alimentação inadequada; uso de vestimentas em exagero; alterações de comportamento são mais comuns como a dependência e apego excessivos ao dono.

Qual é a primeira mudança que o dono precisa ter, tanto de comportamento e postura, com um animal que se “acostumou” à humanização?
Um forte trabalho de mudança de comportamento deve ser realizado, o que pode não ser tão simples, pois muitas vezes os hábitos estão bem enraizados - ou seja, podem brigar contra o instinto natural deles mesmos. A ajuda de um profissional em comportamento pode ajudar nessa transição.
  
Mas em quais situações isso pode estar ou não acontecendo? Se você faz...

...Festa de aniversário: é uma forma de humanizar, mas é um dos menores desencadeantes de problemas comportamentais. Até porque só ocorre uma vez ao ano, e na verdade pode até ser uma boa forma de socializar o animal a outros da sua espécie.

...Dar chupeta: Humanização extrema. Nenhum animal, nem mesmo nós humanos necessitamos do estímulo da sucção fora do período de aleitamento. Isso pode gerar dependência psicológica ao animal, além de ser um grande risco para a ingestão de corpo estranho (o bico da chupeta) podendo levar o animal a um quadro obstrutivo onde será necessária cirurgia para retirada do mesmo.

...Falar com voz de criança e tratar como um bebê: não chega a ser uma humanização, pois para o cão esta é forma de comunicação que ele conhece daquela determinada pessoa. Ele entende como se ela só falasse assim. Mostra um certo grau de inferioridade para os cães pois sons mais agudos são entendidos como certa fraqueza, perto de sons graves e mais confiantes.

...Preocupação excessiva com o animal  (questionando sempre se ele está com o peso ideal, se isso ou aquilo é normal, etc): este zelo com a saúde não pode ser caracterizada como humanização a não ser que o proprietário comece a compara as próprias doenças com o cão Por exemplo, levar o animal ao veterinário para ver se ele tem bronquite pois o dono também tem e acredita que o cão realiza determinada reação igual a ela, logo tem a mesma doença. Ou por ser diabética, aplica a mesma dieta ao cão, pois acredita que ele seja diabético também.

 ...Carregar o animal no colo mesmo quando não é necessário: forte característica de humanização e bem prejudicial ao comportamento canino e felino.  

...Fazer uma decoração especial no cantinho onde ele dorme: não impacta muito no animal desde que o limite de conforto dele não seja afetado. Espaços muito enfeitados se tornam muito estimulantes para um gato que necessita apenas de uma toca escurinha e confortável para dormir.

...Ter um carrinho de bebê para levá-lo ao passeio: humanização, da mesma forma como levar o cão no colo mesmo quando não é necessário.



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