domingo, 18 de setembro de 2016

Crítica: Elantris

História mistura estilo de George Martin com J.R.R. Tolkien e mostra que para ser bom basta uma narrativa bem construída

Capa (Divulgação)

Uma colher de sopa de política; uma colher de chá de religião com magia; uma xícara de mistério; uma pitada de bons personagens e um leve toque de ação que explode no fim. Essa é a receita de Brandon Sanderson, o autor norte-americano que se lançou ao mercado editorial através de Elantris. Com uma narrativa envolvente, Sanderson consegue fazer com que suas quase 600 páginas rendam boas quatro horas de leitura ininterruptas.

Elantris é o livro para aqueles que se importam em usar mais a cabeça do que vê-las rolando e prova que para ser bom não é preciso sangue em demasia, nem linguagens loucas demais. É um livro para ser lido com a mente: muito discurso político, muita teologia, muita sociologia, filosofia e religião que culminam em um resultado simples, porém empolgante. A história é narrada do ponto de vista de três grandes personagens – Raoden (o príncipe herdeiro do trono de Arelon), Sarene (a princesa prometida ao príncipe) e Hrathen (uma espécie de líder religioso) – e sempre de forma contínua, o que torna a leitura agradável e fugindo totalmente da repetição dos fatos e acontecimentos.

Elantris é uma cidade que antes era vista como divina, assim como seus habitantes. Cheia de magia, podia se sustentar por si só, além do povo. Mas, por algum motivo misterioso, a magia acabou e os elantrinos foram tidos como “amaldiçoados” – uma aparência típica de zumbis (ou seja, uma idéia moderna refletida em uma história de ficção medieval) -, não se curavam de ferimentos, sentiam muita fome e viviam como animais. Assim, todos os habitantes que se tornavam elantrinos eram jogados dentro das muralhas de Elantris. Raoden foi um deles, mas diferente dos demais, decidiu não se entregar à situação e dá início a um processo de reerguimento para uma Nova Elantris, ao mesmo tempo em que estuda os conhecimentos do AonDor, tida como a magia da cidade. Enquanto isso, do lado de fora, sua prometida Sarene enfrenta o preconceito de ser uma diplomata inteligente para jogar com políticos e inclusive com o gyorm Hrathen, um homem manipulador que quer converter toda Arelon antes de uma guerra anunciada.

Acima de tudo, Elantris tem o propósito de um bom discurso: ameaças nas entrelinhas, estratégias escondidas em olhares e pensamentos ocultos, sentimentalismo revestido de armadura e mentiras revestidas de trajes simplórios. Dos três, o único personagem que não foge à regra clichê é Raoden, o herdeiro do trono que inspira liderança e esperança. Mas até mesmo nisso há uma intenção de ser. Sarene é cativante e Hrathen é instigante. Vale dizer a frase “nunca julgue um livro pela capa”.

É verdade que Sanderson poderia ter economizado umas 200 páginas, que poderiam ser mais bem resumidas nos assuntos menos importantes para a história. E Galladon, amigo elantrino de Raoden, que ainda ficamos um pouco sem saber de onde veio. Mas nada que apague o brilhantismo da obra. A ação fica apenas para as 100 últimas páginas e prepare-se para elas – os capítulos passam a ser divididos internamente, pulando de um personagem para outro, inclusive outros menos desenvolvidos no enredo. Eles contam, “ao mesmo tempo”, o que acontece aqui e ali, lugares, batalhas, pensamentos, instantes e um quebra-cabeça finalmente montado. É uma leitura extremamente rápida, que poderia ter sido escrita mais devagar, mas talvez esta fosse a intenção, depois de tantas guerras travadas com sábias palavras construídas ao longo do tempo. Chega a hora de correr com força. É exatamente o que sentimos nessas páginas; é isso que seu cérebro precisa e vai entender você está fazendo. E no fim termina rápido e talvez você diga “mas já?” com um coração disparado e a respiração ofegante.

Como é bom ler uma história onde você conversa com si mesmo (todo leitor sabe disso, pois falamos em voz alta) – “Caramba!”, “Ah não, que droga!”, “Ahhhh!” (aqueles de espanto), “Hahaha” (sim, Elantris faz rir também), “É isso!”, “Já acabei de ler o livro?”. Essa é a magia de Elantris, que proporciona prazeres como estes. Mas tem um lado negativo. Quando terminar de ler, chegará a sensação de luto e talvez, quando você acordar de madrugada, vai se lembrar que no dia seguinte não terá mais Raoden, Sarene ou Hrathen para contar a história. Bem, seja bem-vindo a Elantris.
  

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