sábado, 10 de setembro de 2016

Literatura sem fronteiras

Mesmo com números não muito animadores, redes literárias e talentos nacionais mostram o futuro promissor do mercado brasileiro


Divulgação

O mercado editorial brasileiro vem sofrendo duras quedas em vendas. De acordo com a Nielsen, que em parceria com a SNEL (Sindicato Nacional de Editores de Livros) realiza estudos e pesquisas de mercado, este é o quinto período consecutivo com resultados negativos, sendo que no acumulado do primeiro semestre foram -16,30% em volume e -6,94% em vendas. Isto se deve, claro, a instabilidade econômica e a falta de incentivo à leitura. Mas, como em toda a crise há oportunidades, autores nacionais e redes dedicas a literatura em geral, surgiram justamente neste período.

Skoob, a rede social voltada para os amantes da literatura, e a TAG Experiências Literárias, que oferece um serviço exclusivo, são exemplos disso. Atualmente, ambos possuem projetos que auxiliam editoras e escritores na divulgação de seus títulos e os levam até o leitor de forma prática. “Para nós o importante é a leitura, seja da forma que vier, papel ou digital. O importante é facilitar o acesso ao livro, gerar o debate, o compartilhamento de opiniões e assim cultivar o hábito da leitura”, afirma Viviane Lordello, Co-fundadora do Skoob. Atualmente, a rede conta com cerca de 3,7 milhões de usuários e disponibiliza cortesias em parcerias com as editoras. Já a TAG é um serviço pago, onde os leitores recebem em casa, mês a mês, um kit com um livro (indicado por autores nacionais), marcador personalizado, revista e informativos com curiosidades sobre a obra e um mimo – uma verdadeira caixinha de surpresas.  “Desde o início, convivemos com os questionamentos: Mas brasileiro lê? Livro de papel? Cadê o e-book? Vocês estão loucos! Mas acreditamos na ideia e no fato de que ainda existem muitos leitores à moda antiga neste país, que cultivam o nobre hábito pela leitura, que apreciam o ato introspectivo de ler, que gostam do cheiro de livro e da alegria de iniciar uma nova leitura”, conta Tomás Susin dos Santos, Co-fundador da TAG, que hoje conta com 10 mil associados ao clube.

É verdade que o brasileiro nunca teve o hábito da leitura para que o crescimento fosse tão representativo, mas estes números de usuários já são indícios de que esse mercado vai mudar. Na verdade, a chegada da Amazon no país incentivou ainda mais, principalmente com os dispositivos e-readers e seus e-books. “O índice está melhorando, e sugerimos um maior investimento em educação e bibliotecas, além de campanhas educativas para que pais e cuidadores incentivem o hábito da leitura desde a infância. Nós mesmos somos uma forma de incentivo uma vez que transformamos uma atividade solitária em uma ação que aglutina e cria comunidades”, diz Viviane. Para ela, as parcerias com as editoras, através da doação de livros, sorteios,  concursos culturais e ações pontuais como a Bienal do Livro, são essenciais.

Dentro de todos esses números, existe um parênteses à literatura nacional, que ainda sofre os preconceitos de que “o que vem de fora, é melhor”. A própria disposição dos livros nas prateleiras não é lá muito entusiasmante para um leitor, o que contribui para que os nacionais ainda não sejam bem vistos. “Uma prática que sempre me incomodou foi a de colocarem todos os livros nacionais reunidos em uma única estande de "literatura nacional", enquanto os livros estrangeiros ficam divididos por segmento: terror, juvenil, fantasia, etc. Quando um leitor entra numa livraria, ele vai direto procurar o setor que gosta mais, então acaba nunca comprando um livro brasileiro de terror, um livro brasileiro de fantasia, porque esses estão escondidos na estante literatura nacional”, analisa Renata Ventura, autora da série “A Arma Escarlate”. Renata é o nome que está na ponta da língua de muitos usuários nas redes sociais – Não é por menos. Quando a própria JK Rowling, autora da série Harry Potter, disse em entrevista que qualquer um poderia criar a “sua Hogwarts”, “A Arma Escarlate” chegou como um bálsamo para satisfazer os sonhos de uma escola de magia adaptada aos costumes e cultura brasileiros.

Redes propagaram autores nacionais que hoje trabalham pelo incentivo à leitura

Renata Ventura é apenas uma dos diversos autores nacionais que ganham reconhecimento do próprio público leitor pelo boca a boca. Ela conta que compreende que as editoras queiram apostar em sucessos estrangeiros como garantia de vendas e lucro, mas que devem apostar também em nossos talentos, do zero. Assim como ela, que começou em um concurso da Editora Novo Século. “Seria incrível se todas as editoras tivessem algo assim. Que apostassem, pelo menos algumas vezes por ano, em um novo escritor. Eu entendo que é arriscado, mas é também necessário, para que nossa literatura cresça cada vez mais”, conta.

É exatamente por isso que as editoras independentes se tornam o caminho para um autor nacional começar sua trajetória. A jovem Luiza Angélica, de apenas 20 anos, e autora do livro “Coisas de Luiza” (com crônicas que abordam temas delicados da adolescência), é um exemplo disso, mas diz que espera que elas ganhem mais força no cenário nacional. Começando seus projetos desde cedo, sofrendo com problemas como ansiedade e depressão, Luiza encontrou na escrita a sua forma de dizer ao mundo como ser mais positivo.

Luiza Angélica, autora jovem que faz bate papo em escolas públicas

Hoje, ela tem um projeto pessoal de “Bate-Papo Literário” nas escolas públicas, com o objetivo de incentivar a leitura nos jovens e também de lhes abrir portas para o futuro. “Indo até as escolas procuro motivar os alunos a correrem atrás do que desejam, buscar isso e acreditar que podem sonhar e realizar. É um discurso inspirador de alguém que acredita em sonhos, mas acorda às 5h da manhã para trabalhar e não tem medo de ouvir um “NÃO”, afirma a jovem escritora. Renata também concorda que a forma mais eficiente e estratégica do incentivo está na escola, onde precisa começar desde cedo, abrindo as possibilidades para a literatura Juvenil, exterminando de vez o preconceito de que o gênero é de menor valor comparado às obras de Machado de Assis que os alunos são obrigados a ler. E este seria apenas o começo.

A autora de “A Arma Escarlate” começou um projeto que possui diversas frentes positivas na educação e na sociedade: o Projeto Potter em Orfanatos. “A ideia era que jovens fãs de Harry Potter visitassem orfanatos e lessem os livros para as crianças, encenando os primeiros capítulos de forma divertida, para que elas gostassem, e então doassem os livros da coleção para que elas continuassem a leitura”, conta Renata. O projeto é feito espontaneamente pelos mais de cinco mil membros do grupo no Facebook.

Como é possível perceber, apesar dos números negativos, o mercado editorial brasileiro nunca esteve tão em evidência e reunindo todos os tipos de público – editoras, autores, leitores, sociedade – em nome de algo que procura mais do que simplesmente as vendas ou os lucros. É uma literatura sem fronteiras, que busca o seu reconhecimento através de sonhos cada vez mais altos.


A autora Renata Ventura 

Para conhecer mais:
Skoob - https://www.skoob.com.br/
TAG Experiências Literárias - http://www.taglivros.com/ 








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